5 curiosidades de Malu Mulher; série que fez história está disponível no Globoplay

Protagonista inspirada em Regina Duarte incomodou censura do regime militar

Regina Duarte como Malu em Malu Mulher (Nelson Di Rago / Globo)

Em razão do Dia Internacional da Mulher, celebrado todo 8 de março, o Projeto Resgate do Globoplay traz a série Malu Mulher (1979) e a novela Maria, Maria (1978). A disponibilização de ‘Malu’, estrelada por Regina Duarte, aconteceu na última segunda-feira (2). Já o folhetim liderado por Nívea Maria, em papel duplo, será oferecido aos assinantes no próximo dia 23.

Malu Mulher foi um marco da TV no Brasil! Pela primeira vez, a Globo investia massivamente em séries, gênero já conhecido dos brasileiros graças a produções importadas e títulos como A Grande Família (1972) e Ciranda, Cirandinha (1978). O objetivo da emissora era colocar os dois pés na realidade, aproveitando o início da abertura política após anos de regime militar – e o consequente enfraquecimento da censura.

As Séries Brasileiras substituíram as novelas das dez, que também permitiam discussões “mais adultas”. Além de ‘Malu’, a Globo lançou, na mesma semana, Carga Pesada, sobre a rotina de dois caminhoneiros, e Plantão de Polícia, que acompanhava repórteres envolvidos com a cobertura dos crimes que aterrorizavam o Rio de Janeiro. Ainda, o teleteatro Aplauso. Malu Mulher foi o projeto de maior sucesso, no Brasil e no mundo, e, certamente, o mais polêmico.

Abaixo, o site Duh Secco lista cinco curiosidades sobre a obra.

Inspiração em Regina Duarte

A Deusa Vencida - Edson França, Glória Menezes, Regina Duarte e Tarcísio Meira
Regina Duarte (Malu), Tarcísio Meira (Edmundo), Edson França (Fernando) e Glória Menezes (Cecília) em A Deusa Vencida (Reprodução / IMDB)

A série discutia o perfil da mulher brasileira no final da década de 1970 a partir dos conflitos de Malu, personagem de Regina Duarte. Após terminar o casamento com Pedro Henrique (Dennis Carvalho, 1947-2026), enfrentando, inclusive, a resistência dos pais – que contemporizavam a infidelidade e as agressões do genro – a socióloga vai à luta, buscando trabalho para sustentar ela própria, a filha pré-adolescente Elisa (Narjara Turetta) e o apartamento.

“Malu foi criada e calcada em cima das minhas próprias experiências. A tal ponto que ficava difícil separar as duas mulheres. Hoje os limites estão mais definidos e quando misturo personagem e pessoa tenho consciência disso. Afinal eu me uso muito para fazer a Malu”, contou a atriz ao Jornal do Brasil, às vésperas da estreia do segundo ano da série.

O nome da protagonista foi uma sugestão de Regina. O primeiro papel dela numa novela, A Deusa Vencida (Excelsior, 1965), também atendia por Malu. A série representou o rompimento definitivo com a alcunha “namoradinha do Brasil”, atribuída à atriz por conta de outro folhetim, Minha Doce Namorada (1971). Regina Duarte buscava desassociar de tal imagem desde Nina (1977), trama das dez; no teatro, ela surpreendeu público e crítica na pele da prostituta Janete, em Réveillon.

Equívoco na concepção

Outro ponto de partida para Malu Mulher foi a comédia romântica An Unmarried Woman (no Brasil, Uma Mulher Descasada), de 1978. O diretor Daniel Filho, então responsável pelo núcleo de séries, admitiu que errou ao adotar um tom também cômico, próximo das sitcoms americanas.

“No seu primeiro perfil, Malu ficou uma boba. Entramos por um caminho empobrecido que o Boni [então vice-presidente de operações da Globo] logo detectou. Então voltamos ao começo com a ajuda de Regina Duarte. Ela, como os demais atores principais das séries, participou da elaboração do personagem. Até que chegamos à Malu atual. Só nos descuidamos do seu lado financeiro, pois ficou parecendo rica, quando na realidade não é”, relatou Daniel ao Jornal do Brasil, classificando os episódios pilotos como “capítulos de novela das seis da tarde”.

Na mesma entrevista, o próprio Daniel Filho admitiu que a linguagem próxima à da novela da versão definitiva acabou “emocionando as pessoas”:

“De qualquer forma, acho que tanto essa série como as outras ainda não encontraram seu ponto de equilíbrio. Há uma distância muito grande entre seus melhores e piores momentos. Mas não se pode negar que Malu é sucesso popular, emocional e polêmico.”

Autocensura

Malu Mulher - Daniel Filho, Fábio Sabag e Regina Duarte
Daniel Filho, Regina Duarte e Fábio Sabag nos bastidores de Malu Mulher (Nelson Di Rago / Globo)

Habituada às intervenções da censura do regime militar, a Globo ficou atenta às polêmicas suscitadas por Malu Mulher desde o lançamento. Em meio a pressões políticas, contrárias ao teor da série, a autocensura global ganhou destaque na imprensa após a repercussão do episódio Ainda Não é Hora, no qual a personagem Jô (Lucélia Santos, em participação) faz um aborto em uma clínica clandestina.

“Seria lamentável que, além da Censura Federal, tivéssemos de lutar também contra nossa própria censura. Mas quero deixar bem claro que sou apenas o criador do programa e não o seu censor. Quando não posso levar um programa ao ar, parto para outro até não poder mais”, pontuou Daniel Filho em entrevista ao Jornal do Brasil.

Por conta do temor quanto às reações dos censores e da parcela mais conservadora da audiência, a Globo demorou a liberar o episódio A Amiga, no qual Malu reencontra uma colega homossexual, Maria, defendida por Angela Leal.

“Malu e uma amiga têm um envolvimento emocional-intelectual, justamente num momento em que a primeira passa por grande carência afetiva. Malu aceita a amiga como ela e, mas não chega a entrar no jogo, mesmo sabendo que a amiga pode achá-la careta. Procurei deixar a história a mais ambígua possível, para que o telespectador também participasse. A posição de Malu pode ser interpretada, a da amiga é, porém, bem clara. É homossexual que não esconde o jogo”, resumiu Euclydes Marinho, autor do episódio, ao Jornal do Brasil.

Liberado com cortes, A Amiga chegou ao fim com uma confissão de Maria sobre a peça que sua imaginação lhe pregou durante um encontro regado a vinho com Malu; a protagonista, para alívio da censura, dos conservadores e da emissora, não havia se relacionado intimamente com a colega, conforme o episódio deu a entender em determinado ponto.

Para-raios de problemas

Público e crítica observaram, ao longo dos episódios, que Malu era uma tremenda azarada! Afinal, ela atraía problemas. Com limitações de orçamento, que implicavam em muitas gravações no estúdio, a série concentrava todos os conflitos no apartamento da figura central. Algumas questões atingiam Malu diretamente; outras exigiam a intervenção direta dela.

“O atraso inicial acabou prejudicando a série. Não tivemos tempo para criar uma sequência adequada, alternando episódios mais dramáticos com os mais leves. E ainda tivemos de discutir com a Censura alguns problemas. A série, afinal, causara um impacto tão inesperado quanto indesejado, já que a falta de tempo nos forçou a mandar os episódios ao ar sem o planejamento preciso. É claro que ‘Ainda Não é Hora’, sobre o aborto, não podia ser jogado logo depois de ‘Bendito o Fruto’, sobre problemas de Malu com a filha, e ‘De Repente, Tudo Novamente’, seu primeiro caso de amor após o desquite. Foi dose”, lamentou Daniel Filho ao Jornal do Brasil sobre a impressão de que a produção “pesava a mão” com a protagonista.

Na segunda temporada, Malu, com a vida estabilizada, foi mais espectadora do que qualquer outra coisa. Os autores providenciaram para ela um emprego fixo num instituto de pesquisa, de onde surgiam as tramas que guiavam os episódios.

Resistência masculina nos bastidores

Malu Mulher - Dennis Carvalho e Regina Duarte
Regina Duarte (Malu) e Dennis Carvalho (Pedro Henrique) em Malu Mulher (Divulgação / Globo)

A equipe de Malu Mulher contava com várias mulheres. Entre elas, a diretora Denise Saraceni, então assistente, e a autora Maria Carmem Barbosa (1947-2023), produtora. Os homens dominavam a direção – Daniel Filho, Dennis Carvalho e Paulo Afonso Grisolli (1934-2004) – e também o roteiro…

Logo no início dos trabalhos, a teatróloga Consuelo de Castro (1946-2016) pediu dispensa, por não conseguir conciliar trabalho e vida pessoal. A também teatróloga Renata Pallottini (1931-2021) não podia ir até o Rio de Janeiro com regularidade para as reuniões de equipe. A única autora, Lenita Plonczynski, dividia os textos com Armando Costa (1933-1984), Euclydes Marinho e Manoel Carlos (1933-2026).

“Tem muita cabeça masculina pensando em vários níveis, na produção, na direção, um mundo quase impenetrável para os pensamentos femininos”, lastimou Lenita em entrevista à revista Veja.

A autora também entregou a dificuldade dos atores em admitir que os personagens entregues a eles, habituados a heróis, possuíam virtudes e defeitos, como qualquer pessoa.

“Seria legal se a gente abordasse o tema do homem desquitado, que deixa o apartamento comprado a duras penas para a mulher, aluga um quarto e sala, e ainda tem que começar tudo de novo”, sugeriu Dennis Carvalho, também a Veja.

Escrito por Duh Secco

Sou apaixonado por TV e novelas desde a infância. Passei pelo blog Agora é Que São Eles e pelos sites Canal VIVA, RD1 e TV História. As análises, informações exclusivas e matérias sobre bastidores de produções do passado e do presente se estenderam às redes sociais. Agora, me dedico a um espaço próprio, sempre empenhado em levar o melhor do audiovisual aos que me acompanham.

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