Após a morte de Manoel Carlos (1933 – 2026), os comentários sobre uma possível reprise de novela em homenagem ao autor dominaram as redes sociais. Algo corriqueiro, aliás, sempre que um grande nome se vai. A Globo até costuma resgatar episódios de séries, filmes ou documentários em reverências do tipo, mas nunca uma trama de longa duração, no Vale a Pena Ver de Novo ou em Edição Especial. Uma possível aposta em Páginas da Vida (2006), porém, parece ideal não só como tributo…
O estilo Maneco sempre fez sucesso nas tardes da emissora. Os folhetins centrados em “conflitos cotidianos” encontram ecos na sociedade em todo e qualquer tempo, o que facilita a penetração entre o público. É justamente o que não acontece com Rainha da Sucata (1990), atual cartaz do ‘Vale a Pena’.
Com uma narrativa calcada em negociatas comuns no Brasil do sufoco econômico, núcleos que remetem a esquetes de antigos humorísticos e uma protagonista que, embora altiva, se deixa sufocar pelo machismo do esposo, a obra de Silvio de Abreu patina na audiência. A média parcial é de apenas 12,3 pontos – a antecessora A Viagem (1994) chegou ao fim com 16,8.
Páginas da Vida possui elementos mais próximos de A Viagem e de outras apostas bem-sucedidas da faixa nos últimos anos. A protagonista Helena (Regina Duarte) luta para manter a guarda da filha adotiva Clara (Joana Mocarzel), rechaçada antes mesmo do nascimento pelo pai biológico, Léo (Thiago Rodrigues), e pela avó materna, Marta (Lilia Cabral), por ter Síndrome de Down.
Ainda, a luta de Marina (Marjorie Estiano) para livrar o pai, Bira (Eduardo Lago), do álcool e a inveja de Sandra (Danielle Winits) direcionada à irmã Thelminha (Grazi Massafera). Tudo isso sob o céu do Rio de Janeiro, precisamente do Leblon, ambiente incomum nas novelas em exibição na casa.
Globo, Páginas da Vida e o Vale a Pena Ver de Novo
Trama de sucesso às nove, com uma das maiores audiências do horário na década de 2000, Páginas da Vida completa 20 anos em julho sem nunca ter tido uma reapresentação na TV aberta. É outro fator a ser considerado neste tempo em que resgates de produções mais antigas parecem mais interessantes que os de títulos recentes – apesar do desempenho pífio de Rainha da Sucata.
A Globo até tentou reprisar o folhetim, em 2012. Na ocasião, a Classificação Indicativa ainda era vinculada ao horário – um produto exibido à tarde exigia recomendação livre ou para menores de 10 anos.
Melindrado com as cenas fortes de Senhora do Destino (2004) em sua passagem pelo Vale a Pena Ver de Novo, em 2009, o Ministério da Justiça exigiu acompanhar ‘Páginas’ editada do primeiro ao último capítulo antes de alterar a classificação, de 14 para 10 anos. Diante da solicitação, a emissora recuou, apostando nas re-reprises de Chocolate com Pimenta (2003) e Da Cor do Pecado (2004).
Mesmo com a queda da medida, que implicou em repetecos como Celebridade (2003) e Avenida Brasil (2012), Páginas da Vida seguiu no arquivo, pintando apenas na TV Paga, via Canal VIVA – hoje Globoplay Novelas –, em 2021.
Logo, seria uma aposta menos óbvia para o ‘Vale a Pena’ do que qualquer outro título assinado por Manoel Carlos. Os mais populares, cabe lembrar, foram reapresentados nos últimos 7 anos; revisitá-los agora, tendo ‘Páginas’ disponível, seria assumir o medo de decepcionar o público outra vez e apostar no “mais do mesmo”, tal qual canais com acervos menores, como Record e SBT.

GIPHY App Key not set. Please check settings