Tropicaliente (1994) está de volta! A partir desta segunda-feira (7), a trama de Walther Negrão ocupa a grade do Globoplay Novelas – às 12h, com reapresentação às 18h30 e às 3h, além de maratona todo domingo, a partir das 6h. Esta é a segunda passagem do folhetim pela TV paga; a primeira foi em 2014, quando o canal ainda atendia por Viva.
Centrada na paixão do pescador Ramiro Soares (Herson Capri) e da empresária Letícia Velasquez (Silvia Pfeifer), Tropicaliente explorou as belas paisagens do Ceará. A ambientação levou a acusações contra a Globo por uma suposta propaganda do governo do estado, então comandado por Ciro Gomes. Também houve críticas por parte do cantor Fagner, cearense, incomodado com o tom caribenho adotado pela produção.
Os bastidores de Tropicaliente, que o site Duh Secco traz abaixo, incluem ainda a saída do diretor Del Rangel (1955-2020), a quase exibição às 19h, os títulos provisórios, os primeiros nomes cogitados para o elenco e o sucesso no exterior.
Ceará na tela

Tropicaliente nasceu de uma encomenda da Globo a Walther Negrão.
“[O diretor de núcleo] Paulo Ubiratan (1947-1998) me disse que íamos fazer uma novela em Fortaleza. […] Eu só tinha ido ao Ceará duas vezes, como turista. Fiz uma pesquisa sobre que tipo de negócio colocar na novela e cheguei à conclusão de que o mais viável era a pesca da lagosta para exportação. Como contraponto, coloquei um estaleiro que fazia barcos lagosteiros. E gostei muito”, contou o autor ao projeto Memória Globo.
De acordo com a revista Veja (25/05/1994), Ubiratan manifestou a Ciro Gomes, na época governador do Ceará e filiado ao PSDB, o desejo de montar a base de gravações da trama no estado. O político pediu destaque, no enredo, a duas apostas de sua gestão: a infraestrutura turística e o setor industrial.
A mesma matéria apontou um investimento de 700 mil dólares do governo cearense no suporte à produção. A rede hoteleira estabeleceu um pool para acomodar a equipe técnica e o elenco. O transporte ficou a cargo da companhia aérea Varig, que, acionada pelo estado, ofereceu descontos de até 75% nas tarifas. Os outros 25% foram pagos pela Coditur (Companhia de Desenvolvimento Industrial e Turístico do Ceará). Até mesmo aluguéis de carros, ônibus, jangadas, barcos de pesca, bugres e helicópteros – para gravações em alto-mar – foram acertados pelo governo. Segundo a Veja, o auxílio do Ceará representou uma economia de 25% no custo médio de cada capítulo.
O governo justificou os gastos com o merchandising sobre o turismo local promovido pela novela. Gomes, porém, assumiu que a propaganda também enaltecia suas condutas enquanto governador. “Acho que foi um dos melhores investimentos que fiz porque, é claro, traz também dividendos políticos na medida em que mostra a administração pública feita aqui”, declarou à revista.
A Globo também foi acusada de, indiretamente, beneficiar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso, do mesmo PSDB de Gomes, à Presidência da República.
Turismo em alta

Como esperado, Tropicaliente impulsionou consideravelmente o turismo no Ceará. A revista IstoÉ (09/11/1994) relatou um aumento de 30% no movimento de hotéis na baixa temporada. Antônio de Matos Brito, então diretor da Coditur, calculava um acréscimo de aproximadamente 17 milhões de dólares nos cofres do setor. A Prefeitura de Beberibe, em ação conjunta com o hotel Praia das Fontes, passou a promover cursos para guias turísticos, garçons e recepcionistas. Stenio Garcia, intérprete do pescador Samuel, foi contemplado com o título de cidadão beberibense.
Além das visitas a Beberibe, município que abriga a Praia das Fontes – onde foi gravada a cena em que Açucena (Carolina Dieckmann) perde a virgindade com Vitor (Selton Mello) –, os turistas buscavam passeios pela praia de Cumbuco, em Caucaia, presente nas sequências em que Cassiano (Marcio Garcia) e Dalila (Carla Marins) namoravam nas dunas. O Beach Park, então em processo de implantação, ganhou fama ao surgir na ficção como Gran Parque Gitano, um dos investimentos de Franchico (Cassio Gabus Mendes).
A cidade cenográfica instalada na praia de Porto das Dunas, município de Aquiraz, também recebia visitantes. Anteriormente, o terreno abrigava a antiga colônia de férias dos funcionários da Companhia de Eletricidade do Ceará. O governo realizou a ligação da rede elétrica e zelou pela segurança do local. Sobre a escolha do espaço, Walther Negrão revelou ao Memória Globo:
“Passamos horas viajando de helicóptero para escolher as praias e acabamos escolhendo não uma praia, mas uma laje de pedra. Foram levados caminhões e caminhões de areia para fazer uma praia no Ceará, imagine que absurdo! Puxaram fios de luz, plantaram coqueiros – que tinham que ser renovados, porque murchavam –, tudo porque aquele local encontrado tinha o visual perfeito”.
Por conta das viagens frequentes ao Ceará, o autor precisou ampliar a frente de capítulos – distância entre os que estão sendo escritos e os gravados. Negrão mantinha cerca de 30 episódios de frente, favorecendo o cronograma de gravações, que consumia de 10 a 15 dias por mês, no estado.
As primeiras gravações no Ceará coincidiram com um período de chuvas intensas, o que obrigou a equipe a preparar quatro roteiros para um mesmo dia: caso fizesse sol, chovesse por um período, chovesse o tempo todo ou houvesse apenas uma garoa fina.
O Caribe é aqui – ou não

O toque caribenho dado à produção, marcado pelo excesso de cores, música latina e danças coreografadas por Márcia Barros – que interpretava a pescadora Inês –, foi sugerido por Negrão.
“Como eu estava num período em que ia muito ao Caribe, sugeri ao Paulo mostrarmos um Ceará-Caribe, com um visual muito colorido e uma música empolgante”, contou ao Memória Globo.
O cantor Raimundo Fagner, cearense, protestou contra a associação em entrevista a IstoÉ: “Nossa cultura é muito forte e característica. Não somos o Caribe brasileiro”.
Troca nos bastidores

Paixão de Verão e Summertime foram títulos considerados para a novela.
Tropicaliente chegou a ser alocada na faixa das sete, como substituta de Olho no Olho (1993). Problemas de produção enfrentados por Vira Lata, trama prevista para o horário, levaram a tal possibilidade. A Globo, porém, optou por entregar a faixa ao remake de A Viagem (1994), mantendo Tropicaliente às seis – Vira Lata só ganhou forma em 1996.
Del Rangel foi o primeiro diretor-geral de Tropicaliente. Ao Jornal do Brasil (19/02/1994), ele chegou a comentar sobre o estilo que pretendia imprimir às cenas: “Digo que essa novela vai ser multifacetada. Cada núcleo terá um comportamento diferente de fotografia, câmera e marcação dos atores. Vou usar alguns clichês. Na relação dos jovens quero algo tipo comercial de jeans: muitas coisas em poucos segundos; imagem um pouco suja. No núcleo dos pescadores penso em planos sequência que traduzam o tempo do mar, o povo mais absorto”.
Rangel acabou deixando a equipe por desentendimentos com o diretor de núcleo Paulo Ubiratan. Ele seguiu para o SBT, onde integrou o time de direção de Éramos Seis (1994). O experiente Gonzaga Blota (1928-2017) assumiu Tropicaliente, contando com o auxílio dos novatos Marcelo Travesso e Rogério Gomes.
Esther Góes e Jofre Soares (1918-1996) constavam nas primeiras listas de elenco – o ator como Velho Buja, papel entregue a Nelson Dantas (1927-2006). Adriana Esteves, também convidada, optou por seguir no teatro com a peça A Falecida, abrindo mão do contrato de exclusividade com a emissora.
Lançada na minissérie Sex Appeal (1993), Carolina Dieckmann integrava o elenco de apoio de Fera Ferida (1993), título das oito, quando Ubiratan solicitou sua participação em Tropicaliente. A personagem Açucena projetou a carreira da atriz. Já Natália Lage, a Adrenalina, foi escalada graças ao cancelamento de Vira Lata, trama para a qual estava reservada.
O folhetim marcou as estreias de Giovanna Antonelli e Daniela Escobar, as irmãs Benvinda e Berenice, na Globo. Também foi o primeiro trabalho como ator de Marcio Garcia, que, na ocasião, apresentava o programa MTV Sports. O personagem de Garcia foi batizado de Cassiano em homenagem de Walther Negrão ao amigo Cassiano Gabus Mendes (1929-1993).
O sucesso de Tropikanka

Sucesso comercial, Tropicaliente virou brinquedo através da fábrica Jak. O jogo de tabuleiro promovia um passeio pela aldeia de pescadores liderada por Ramiro. A Azaleia, fabricante de sapatos, lançou uma sandália com a marca da novela.
A trama foi importada para vários países. O sucesso na Rússia, onde foi intitulada Tropikanka, levou o canal OPT a adquirir Mulheres de Areia (1993) e exibi-la como Tropikanka 2 – apesar dos dois folhetins terem apenas a ambientação litorânea como ponto em comum.
A trilha sonora internacional contava com duas versões. As músicas Años, de Mercedes Sosa e Pablo Milanés, e El Reloj, de Francisco Xavier, constavam apenas no CD e na fita K7. Essas mídias também traziam uma inversão de faixas na comparação com o LP: Oye Como Va, de Santana, aparecia depois de Cuando Caliente El Sol, de Trini Lopez, e Nosotros, de Eydie Gormé & Trio Los Panchos.
Tropicaliente na Globo e no Canal Viva

A exibição de Tropicaliente foi afetada pela Copa do Mundo dos Estados Unidos, que culminou com o tetra da Seleção Brasileira. Vários capítulos foram ao ar em horários atípicos, especialmente entre 19h e 19h30. A novela não foi exibida nos dias 24 de junho e 5 e 13 de julho.
Na reta final, a trama precisou ser esticada para que a substituta, uma releitura do clássico Irmãos Coragem (1970), estreasse na primeira segunda-feira de janeiro de 1995, abrindo a comemoração dos 30 anos da Globo.
Enquanto Tropicaliente ocupava o horário das seis, A Viagem e Quatro por Quatro (1994) foram ao ar às sete, e Fera Ferida e Pátria Minha (1994) passaram pela faixa das oito. Também foram exibidas as minisséries Memorial de Maria Moura (1994) e Incidente em Antares (1994). O Vale a Pena Ver de Novo abrigou os repetecos de Rainha da Sucata (1990) e Tieta (1989).
A novela ostenta a terceira maior média de audiência das seis na década de 1990: 39,1 pontos na Grande São Paulo, atrás dos 44,1 de Sonho Meu (1993) e dos 49,2 de Mulheres de Areia.
Já a passagem pelo Vale a Pena Ver de Novo, entre março e julho de 2000, não foi tão bem-sucedida. Prejudicada pelos baixos índices do Mais Você, em seu primeiro ano – então às 13h50, logo após o Vídeo Show –, Tropicaliente chegou ao fim com 14,8 pontos de média geral. A reprise superou apenas, considerando a década em questão, os 14,4 de Deus nos Acuda (1992) e os 11,1 do Você Decide (1992-2000) – repetecos de 2004 e 2001, respectivamente.
No período em que a trama ocupou o Vale a Pena Ver de Novo, a Globo exibiu as duas primeiras temporadas de Malhação no colégio Múltipla Escolha (lançadas em outubro de 1999 e abril de 2000), Esplendor (2000) e O Cravo e a Rosa (2000) às seis, Vila Madalena (1999) e Uga-Uga (2000) às sete e Terra Nostra (1999) e Laços de Família (2000) às oito, além das minisséries A Muralha (2000) e A Invenção do Brasil (2000).
Tropicaliente foi resgatada pelo Canal Viva em novembro de 2014, após vencer, com 37% dos votos populares, as concorrentes Lua Cheia de Amor (1990) e Despedida de Solteiro (1992). O canal optou pela enquete após o público rejeitar Pecado Capital (1998), título inicialmente anunciado para substituir História de Amor (1995).
Durante a reapresentação de Tropicaliente no Viva, A Viagem (1994), Pedra Sobre Pedra (1992), O Dono do Mundo (1991) e Fera Ferida (1993) também foram reprisadas.

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