António Barreira celebra estreia de Dona Beja e remake de Páginas da Vida

Autor português revela paixão por novelas brasileiras

António Barreira, coautor de Dona Beja, estrelada por Grazi Massafera (Reprodução / Instagram - Divulgação / HBO Max)

Nesta segunda-feira (2), a HBO Max disponibiliza os primeiros capítulos de Dona Beja. A releitura da novela que fez história na extinta Manchete traz Grazi Massafera no papel que consagrou Maitê Proença, o de Ana Jacinta de São José, a Beja. O roteiro é assinado por Daniel Berlinsky e António Barreira, autor português em seu primeiro trabalho no Brasil.

Barreira conquistou o Emmy com Meu Amor, de 2009. Dois anos depois, foi novamente indicado, por Remédio Santo. Em 2020, o autor trocou a TVI pela SIC, parceira da Globo em Portugal. No momento, enquanto celebra o lançamento de Dona Beja, António trabalha junto à equipe de roteiro da adaptação de Páginas da Vida (2006), de Manoel Carlos (1933 – 2026), que a SIC estreia em breve.

António Barreira respondeu a cinco perguntas do site Duh Secco sobre Dona Beja – da atualização ao apreço pelo original assinado por Wilson Aguiar Filho (1951 – 1991) –, a proximidade com as novelas brasileiras e Páginas da Vida.

1 – Qual a sua expectativa para Dona Beja e como foi conduzir este trabalho ao lado de Daniel Berlinsky e equipe?

Quando escrevemos uma novela, nossas expectativas são sempre grandes, por muito que tentemos dominar as mesmas. Ainda para mais, no caso de Dona Beja, que a gente terminou de escrever em 2023 e que terminou de ser editada no ano retrasado, com todo o cuidado que uma produção para o streaming requer. Por existir muita emoção envolvida, é impossível não esperarmos que o nosso trabalho consiga emocionar, fazer pensar e até incomodar o público, porque o incômodo gera reflexão.

Foi um trabalho muito árduo da minha parte, do Daniel e da nossa equipe de roteiro (Maria Clara Mattos, Cecília Giannetti, Clara Anastácia e Ceci Alves), do nosso assistente de roteiro (Matheus Oliveira), da nossa equipe de pesquisadores de texto (Alana Cabral e Jorginho Santana) e das nossas consultoras de diversidade (Jaque Conceição e Beta Boechat) para fazer os melhores roteiros dentro dos padrões exigidos pela HBO. Cabe aqui um agradecimento especial a Mônica Albuquerque, a Edna Palatnik e ao mestre Silvio de Abreu, que sempre entenderam nossas necessidades e com quem debatemos questões mais sensíveis que serão abordadas e mostradas ao longo dos capítulos.

Embora sejam apenas 40 capítulos, é um trabalho que exige mais do que 200 capítulos em TV aberta, sem qualquer menosprezo pela TV aberta. Mas, no streaming, não dá para consertar nada no meio do caminho. A obra é totalmente fechada e não podem existir pontas soltas no final da novela, a não ser que isso seja feito de modo proposital. Então, não podíamos perder essa “bússola” em nenhum momento da escrita. E, por se tratar de uma novela em que o feminino está no centro da trama, toda a nossa equipe era composta por mulheres com vivências diferentes, porque maior foi a diversidade que trouxeram para este trabalho. Na minha opinião pessoal, acho que conseguimos construir uma história forte, coesa e que toca em feridas muito atuais. Mas creio que estamos todos orgulhosos do trabalho que o público irá ver nas suas casas.

2 – Dona Beija, produzida pela Manchete, revolucionou a TV brasileira e fez muito sucesso quando exibida em Portugal. Você acompanhou a trama e o impacto dela na época?

Quando Dona Beija da TV Manchete passou em Portugal, eu estava entrando na adolescência. Eu me lembro de que passava a hora tardia. Mesmo assim, todo mundo falava da beleza da Maitê e dos famosos banhos de cachoeira. Havia pouco mais de 10 anos que Portugal tinha saído de uma ditadura e, por isso, tudo era novo para nós, nomeadamente no interior onde eu morava. Foram manchetes e manchetes de revistas e jornais falando do fenômeno, algumas das quais ainda com os resquícios do “pudor” imposto pela ditadura que tinha terminado na década anterior.

3 – Em quais pontos a releitura se aproxima do original de Wilson Aguiar Filho e em quais se distancia?

Nossa releitura aproveita a espinha dorsal e a maioria dos personagens criados por Wilson Aguiar Filho, mas com um olhar atual. Diferente da ousadia de 1986, a gente “virou a câmera” para fora da senzala na questão da negritude. Vai haver muita gente a dizer que é ficção científica e que podemos estar passando um pano na escravidão, mas a escravidão continua sendo nosso pano de fundo. Porém, nos focamos nos negros livres e aqui cabe ressaltar um estudo muito aprofundado que fizemos sobre a negritude da época. Essa questão não é ensinada na escola oficial, mas documentos da época e figuras históricas reais e negras embasam a sociedade que a gente mostra na novela.

Muita gente diz que Beja era escravocrata. A verdade é que se sabe muito pouco sobre essa mulher. Na ótica de alguns historiadores com quem falamos na época em que começamos a escrever, Dona Beja poderá não passar de um mito criado pelos autores dos livros que serviram de base à novela. Um mito que perdura até hoje. Com esse olhar contemporâneo, trouxemos assuntos cotidianos e pautas atuais para a novela, porque esses assuntos existem desde que a nossa sociedade virou patriarcal e profundamente machista. E, infelizmente, a nossa sociedade não mudou tanto em duzentos anos.

Então, nós temos uma história sobre empoderamento feminino, mas também do feminino que habita em cada um de nós. Podemos dizer que esse é o conceito que atravessa toda a novela. Talvez nossa ousadia, até porque é fruto da nossa época, seja diferente da do senhor Wilson Aguiar Filho, ele próprio um audaz quando escreveu essa história na década de 80. Vamos ver uma novela de época, ambientada no século XIX, mas que dialoga com a atualidade.

4 – As novelas brasileiras representam o primeiro contato dos portugueses com o gênero. De que forma tais produções influenciaram sua trajetória como autor?

As novelas brasileiras foram o que me impulsionou a querer ser autor. Não existia indústria de ficção para TV em Portugal quando eu decidi que queria escrever novelas. Foi uma decisão precoce, com apenas 13 anos de idade. Então, como muitos autores brasileiros que já nos deixaram, eu comecei na rádio, escrevendo radionovela nos anos 90. Quando a indústria de ficção realmente começou em Portugal, ganhei um concurso de novos talentos e começou minha viagem pelas telenovelas. Mas a minha influência vem dos mestres da teledramaturgia brasileira.

5 – No momento, você integra a equipe da versão portuguesa de Páginas da Vida, sucesso de Manoel Carlos. Como tem sido este trabalho?

Eu sou fascinado pelo universo do Maneco, que nos deixou recentemente. Praticamente em todas as minhas novelas, eu tenho uma protagonista ou vilã chamada Helena. Por isso, fazer parte da equipe que está trazendo Páginas da Vida para Portugal é uma honra. E tem sido ótimo trabalhar com a Sandra Santos e o Alexandre Castro, que estão no leme dessa adaptação, assim como com colegas com quem nunca tinha trabalhado e acabamos por nos tornar amigos. É uma equipe nota 10. Para além da Sandra e do Alexandre, a Ana Lúcia Carvalho, a Andreia Vicente Martins, o Manuel Carneiro, o Manuel Mora Marques e o Pedro Cavaleiro viraram uma grande família. E a gente se diverte muito! Além de nos emocionarmos todos os dias!

Escrito por Duh Secco

Sou apaixonado por TV e novelas desde a infância. Passei pelo blog Agora é Que São Eles e pelos sites Canal VIVA, RD1 e TV História. As análises, informações exclusivas e matérias sobre bastidores de produções do passado e do presente se estenderam às redes sociais. Agora, me dedico a um espaço próprio, sempre empenhado em levar o melhor do audiovisual aos que me acompanham.

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