Na última segunda-feira (19), o Globoplay Novelas deu início à exibição de Maria Mercedes (1992) – de segunda a sábado, às 21h45, com reapresentação às 5h20, 9h45 e 17h30. A trama mexicana estrelada por Thalia também está disponível, na íntegra, no Globoplay. O resgate através das plataformas da Globo veio no embalo dos 30 anos da estreia do folhetim no Brasil, via SBT.
Maria Mercedes foi fundamental para a emissora de Silvio Santos (1930-2024). Em 1996, o empresário inaugurou o CDT (Centro de Televisão), às margens da rodovia Anhanguera. Todas as produções foram transferidas para lá. Mas a euforia logo virou frustração. Vários projetos foram suspensos em meio ao corte de gastos necessário para a conclusão dos estúdios e a manutenção dos trabalhos.
Foi assim que a novela que projetou Thalia no Brasil, anunciada pelo então conselheiro administrativo Luciano Callegari como a “última mexicana” do SBT, abriu espaço para outros dois títulos da Televisa, protagonizados pela mesma atriz: Marimar (1994) e Maria do Bairro (1995). O site Duh Secco relembra a grade da emissora na época, as mudanças causadas pela crise e o impacto de Maria Mercedes no país.
SBT em alta

No início de 1996, Silvio Santos sonhava grande. Após a saída de Monica Waldvogel rumo à Globo, o SBT reforçou a equipe de jornalismo com Hermano Henning, Silio Boccanera e Valéria Sffeir (1953-2010), todos ex-globais. Na sequência, Marília Gabriela foi contratada para a apresentação do SBT Repórter, que contava com matérias de Roberto Cabrini, direto de Nova Iorque; meses depois, Domingos Meirelles foi integrado ao time.
Silvio Luiz (1934-2024) e Nivaldo Prieto trocaram a Band e a ESPN Brasil, respectivamente, pelas transmissões de campeonatos de futebol e da Fórmula Indy – adquirida pela emissora por um valor próximo ao desembolsado pela Globo no mesmo período pelos direitos da Fórmula 1. Comumente, a Indy ocupava parte do horário do Domingo Legal com Gugu Liberato (1959-2019), que, com a Banheira do Gugu, acirrava a disputa pela liderança com o Domingão do Faustão.
A programação infantil, um dos pilares da emissora, perdeu Angélica, contratada pela principal concorrente. Eliana acabou fortalecida, já que, além do Bom Dia & Cia., passou a conduzir o TV Animal, antes a cargo da colega. O Passa ou Repassa, que Angélica apresentava nas tardes de segunda a sexta, foi entregue ao pouco conhecido Celso Portiolli. O desenho O Fantástico Mundo de Bobby, exibido dentro do Programa Sérgio Mallandro, atraía crianças e adultos.
Em maio, uma investida ousada: no mesmo dia 6, o SBT lançou três novelas. Colégio Brasil e Antônio Alves, Taxista eram coproduções; Razão de Viver foi realizada pela própria emissora. Neste cenário, faltava espaço para os folhetins mexicanos. Maria Mercedes foi programada para as tardes de sábado, após o Show de Calouros e a série Dra. Quinn. Nas grades divulgadas pelo jornal O Globo, a trama consta nos dias 11, 18 e 25 de maio, às 16h – tais exibições, no entanto, nunca aconteceram.
Maria Mercedes como tapa-buraco

A não exibição aos sábados favoreceu o sucesso de Thalia e o SBT. Os atritos nos bastidores da Ronda Studios, produtora argentina responsável pelas gravações de Antônio Alves, Taxista, e o fraco desempenho em audiência levaram à antecipação do término da trama protagonizada por Fábio Jr. Maria Mercedes ocupou o horário. A estreia se deu em 12 de agosto. Dias depois, na inauguração do CDT, Luciano Callegari declarou ao jornal O Estado de São Paulo:
“Maria Mercedes deverá ser a última mexicana que colocamos no ar. Do contrário, não justificaria um investimento tão alto em equipamentos e infraestrutura”.
No mesmo evento, duas novas novelas brasileiras foram anunciadas. Para a faixa de Colégio Brasil, Casa de Anja, depois rebatizada Dona Anja, com o mesmo diretor geral, Roberto Talma (1949-2015), e a mesma equipe, a da produtora JPO. A Pantera, de Vicente Sesso, com direção geral de Marcos Schechtman e direção de Marco Ricca, foi apontada como substituta de Razão de Viver. A sinopse do terceiro folhetim, para o horário de Maria Mercedes, ainda não havia sido definida.
Planos reformulados

Enquanto Maria Mercedes ganhava audiência, Silvio Santos alterava os planos relativos à dramaturgia para evitar um rombo no orçamento. Com o término de Colégio Brasil antecipado em dois meses, a faixa das 18h foi entregue ao jornalístico Aqui Agora. Dona Anja foi deslocada para 22h, com estreia agendada para dezembro, após Razão de Viver – e ganhou tintas mais fortes, inspirada pelo erotismo de Xica da Silva (1996), da Manchete.
A Pantera acabou engavetada, por conta dos altos custos de produção. O núcleo liderado por Nilton Travesso iniciou os trabalhos de outro texto, menos oneroso: Os Ossos do Barão, adaptação de Walter George Durst (1922-1997) para a obra homônima de Jorge Andrade (1922-1984), exibida pela Globo em 1973.
O cronograma apertado e o êxito de Maria Mercedes levaram ao adiamento da estreia de Os Ossos do Barão. Marimar foi escalada para o horário e embalou ainda mais os índices de audiência. Maria do Bairro veio em seguida. Os Ossos do Barão só ganhou a tela do SBT em abril de 1997, quando o último título da trilogia estrelada por Thalia entrava no terço final – a trama nacional era exibida logo após a importada, numa tentativa de herdar os bons números.
Maria Mercedes, Marimar e Maria do Bairro entraram para a história do SBT e da televisão brasileira. A primeira, inicialmente tratada como a última aposta mexicana da emissora de Silvio Santos, pavimentou o caminho para as outras duas. Três décadas depois, a Globo reconhece tais fenômenos e dá espaço a Thalia, na TV paga e em sua plataforma de streaming.

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