Nesta segunda-feira (2), o projeto Originalidade do Globoplay atualizou a novela Meu Bem, Meu Mal (1990). Disponível na plataforma de streaming há seis anos, a trama teve aspectos como imagem e som restaurados. O site Duh Secco aproveita a ocasião para resgatar os bastidores da produção.

Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), autor de Meu Bem, Meu Mal, foi um dos profissionais mais completos da televisão brasileira. Diretor artístico da Tupi desde a inauguração da emissora até meados dos anos 1970, Gabus Mendes estreou na Globo como autor de Anjo Mau (1976). Nos anos seguintes, deu o tom do horário das sete com seu humor refinado.
Enquanto Cassiano Gabus Mendes reinava às sete, a emissora sofria um duro golpe em sua faixa nobre: Janete Clair (1925-1983), responsável por grande parte dos folhetins exibidos às oito até então, faleceu em decorrência de um câncer no intestino. Lauro César Muniz, que dividiu o horário com Janete entre 1975 e 1979, afastou-se da Globo após o insucesso de Os Gigantes (1979). Manoel Carlos (1933-2026), abalado com a morte do protagonista de Sol de Verão (1982), Jardel Filho (1927-1983), também deixou a emissora. À frente das novelas das oito, restou apenas Gilberto Braga (1945-2021). A solução foi promover o principal autor das sete ao horário nobre. Assim nasceu Champagne (1983), que, prejudicada pela Censura, frustrou Gabus Mendes e o levou de volta às sete.
A Globo então experimentou novos autores às oito, como Aguinaldo Silva e Gloria Perez, com Partido Alto (1984), e Eloy Araújo (1937-2019) e Regina Braga (1941-1999), com o remake de Selva de Pedra (1986). Silva ganhou popularidade com Roque Santeiro (1985), dividindo a autoria com Dias Gomes (1922-1999), e com a pouco lembrada O Outro (1987). Lauro César Muniz voltou ao horário com tramas políticas (Roda de Fogo e O Salvador da Pátria, em 1986 e 1989), enquanto Gilberto Braga manteve a luta de classes como eixo de seus enredos (Corpo a Corpo e Vale Tudo, de 1984 e 1988).
O sucesso de Pantanal e o desespero da Globo

Em 1989, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então vice-presidente de operações, suspendeu a produção de Barriga de Aluguel, que marcaria o retorno de Gloria Perez à emissora após uma passagem pela Manchete. O objetivo era conter o “excesso de drama” da faixa das oito. Tieta (1989), inicialmente planejada como minissérie, virou novela. O sucesso do tom cômico dado por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares à adaptação da obra de Jorge Amado (1912-2001) levou Silvio de Abreu, vitorioso às sete, ao panteão das oito.
Rainha da Sucata (1990), trama que celebrou os 25 anos da Globo, reuniu o “elenco mais estelar de todos os tempos” em um enredo que mesclava drama e humor. A combinação não funcionou de início, o que levou Silvio a acentuar o sofrimento dos personagens centrais e a investir na comédia em núcleos paralelos.
Rainha da Sucata também foi ofuscada pelo fenômeno Pantanal (1990), produção da Manchete que derrubou a linha de shows da Globo e levou a emissora a investir em minisséries. Desejo (1990) e Riacho Doce (1990), entre outras, ajudaram a Globo na disputa por audiência contra Pantanal. Apavorada, a emissora julgou necessário combater a novela concorrente com uma produção do mesmo gênero. A solução foi transferir Araponga, então prevista para as oito, para um novo horário: o das nove e meia. A estratégia era simples: o público de uma trama permaneceria ligado na outra, sem trocar de canal.
O resgate do folhetim

Foi aí que entrou Meu Bem, Meu Mal. Diante do sucesso do folhetim tradicional de Rainha da Sucata, a Globo não quis ousar com a narrativa pouco convencional de Araponga e preferiu exibi-la em uma faixa alternativa, contra uma produção também pouco convencional: Pantanal. Cassiano Gabus Mendes, vindo do sucesso de Que Rei Sou Eu? (1989), foi escalado mais uma vez para salvar o horário nobre, concebendo um “novelão”.
Sobre a tarefa, Gabus Mendes comentou em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2 de setembro de 1990: “Me chamaram com urgência e estou estudando para ver se acho uma novela. É perigoso. Inclusive, é uma fria”. Em outro depoimento ao mesmo jornal, publicado em 28 de outubro daquele ano, complementou: “Não tive muito tempo para pensar. Vou me basear mais no folhetim e atacar o problema do amor que está meio fora das telas”.
A direção ficou a cargo de Paulo Ubiratan (1947-1998), Reynaldo Boury (1932-2022) e Ricardo Waddington, o mesmo trio da aclamada Tieta. Com a novela no ar, Marcos Paulo (1951-2012), intérprete de André, passou a dirigir a produção em substituição a Paulo Ubiratan, que permaneceu como diretor executivo.
Habituado a iniciar um trabalho com cerca de 40 capítulos escritos, Cassiano Gabus Mendes contava, dessa vez, com apenas 20. “Estão suando frio para colocar a novela no ar”, comentou em entrevista à Folha, em 28 de outubro de 1990.
A inspiração em clássicos das novelas

O autor baseou-se em dois grandes sucessos dos anos 1960, relacionados à sua própria carreira, para conceber Doca (Cassio Gabus Mendes) e Dom Lázaro Venturini (Lima Duarte). A trajetória do primeiro era claramente inspirada na do protagonista (Luis Gustavo, 1934-2021) de Beto Rockfeller (1968): um pobretão que se passa por rico na alta sociedade paulistana, seduz uma herdeira milionária e é perseguido pelo ex-namorado dela, enquanto mantém uma namoradinha no subúrbio. Já em O Direito de Nascer (1964), Gabus Mendes buscou o recurso que levaria Dom Lázaro a manter em segredo um dos grandes mistérios de Meu Bem, Meu Mal: ao descobrir que sua nora tem um caso com seu sócio e inimigo, Lázaro sofre um derrame. A mesma situação havia acometido Dom Rafael de Juncal (Elísio de Albuquerque, 1920-1983), vilão de O Direito de Nascer.
Maria Adelaide Amaral foi convidada por Gabus Mendes para integrar a equipe de colaboradores da novela antes da estreia. No entanto, a autora só pôde se dedicar a Meu Bem, Meu Mal após regressar de uma viagem à Inglaterra. O titular reunia-se com os demais colaboradores a cada 15 dias e dividia os capítulos com Maria Adelaide da seguinte forma: ele escrevia os de segunda, quarta e sexta-feira; ela, os de terça, quinta e sábado.
Tato Gabus, filho do autor, costumava apresentar sugestões para a novela. Chegou, inclusive, a roteirizar um capítulo inteiro, como teste.
As gravações em estúdio começaram apenas 15 dias antes da estreia. Por pouco, não foram interrompidas devido a uma ameaça de greve da equipe técnica da Globo, que trabalhava em Meu Bem, Meu Mal por 18 horas diárias, sete dias por semana. Naquele período, chegou-se a aventar a possibilidade de Araponga, mais adiantada na produção, ocupar o horário para o qual havia sido concebida.
Para desafogar seus estúdios, a Globo assinou contrato com a produtora Tycoon, até então associada à publicidade, que ofereceu toda a infraestrutura necessária às gravações. A direção e a palavra final, contudo, continuaram sob responsabilidade da emissora.
A aposta em Silvia Pfeifer

A escalação do elenco foi outro dilema. Não era possível contar com atores já escalados para produções futuras, e grandes nomes também estavam ligados à Manchete e ao SBT, que, naquele momento, reinaugurava seu núcleo de teledramaturgia com Brasileiras e Brasileiros (1990).
Na mesma época, a Globo estabeleceu uma parceria com as redes RTVE, da Espanha, e RSI, da Itália, visando à produção da próxima novela das sete. O texto de Carlos Lombardi, Perigosas Peruas, já em compasso de espera, acabou preterido por Lua Cheia de Amor (1990), nova versão de Dona Xepa (1977), trama de Gilberto Braga baseada na obra de Pedro Bloch (1914-2014), considerada mais “atraente” para o público europeu.
Com o adiamento de Perigosas Peruas, José Mayer, inicialmente escalado para a novela, foi remanejado para Meu Bem, Meu Mal, como o protagonista Ricardo.
Silvia Pfeifer, intérprete da vilã Isadora Venturini, também estava escalada para Perigosas Peruas, que, curiosamente, veio a marcar sua segunda empreitada no gênero, em 1992. A ex-modelo havia estreado como atriz em Boca do Lixo, minissérie de Silvio de Abreu. Silvia sofreu reprimendas de sindicatos por assumir o posto de protagonista de uma novela das oito mesmo tendo pouca experiência diante das câmeras.
Isadora Venturini, aliás, chamava-se Paula quando Meu Bem, Meu Mal ainda era intitulada Amor e Ódio.
Não foi a primeira vez que Silvia Pfeifer atuou em uma novela de Cassiano Gabus Mendes. Ainda modelo, ela participou da abertura de Plumas e Paetês (1980).
Os novatos do elenco

O cancelamento de Perigosas Peruas implicou na liberação de José Mayer e Silvia Pfeifer, mas a produção de Lua Cheia de Amor acabou levando Isabela Garcia, inicialmente escalada para viver Vitória Venturini, personagem defendida por Lisandra Souto. Outras escalações que não se concretizaram foram as de Dennis Carvalho (1947-2026) como Cláudio, vivido por Herson Capri, e de Valéria Alencar, recém-saída de Riacho Doce, como Dirce, interpretada por Luciana Braga.
A escassez de atores levou a produção a apostar em iniciantes para personagens relevantes no enredo, a começar por Silvia Pfeifer. Adriana Esteves, a Patrícia, revelada em um concurso do Domingão do Faustão, havia participado apenas de Top Model (1989) e de um episódio de Delegacia de Mulheres (1990).
Mylla Christie, a Jéssica, havia atuado ainda menina em um especial de fim de ano do cantor Roberto Carlos. Quando recebeu o convite para Meu Bem, Meu Mal, apresentava um programa de variedades na Record. Já Lisandra Souto, então com 15 anos, emendava a doce Kika de Gente Fina (1990) na voluntariosa Vitória de Meu Bem, Meu Mal.
Fabio Assunção estreava em novelas como Marco Antônio, levando na bagagem cursos de teatro com nomes como Beto Silveira. O sucesso em Meu Bem, Meu Mal o credenciou para o posto de protagonista jovem de Vamp (1991). Já Edson Fieschi, o João Emanuel, vinha de participações em Vale Tudo (1988) e Tieta.
O personagem preferido do autor

Vera Zimmermann havia integrado o elenco de Vida Nova (1988), exibida às seis. O sucesso de sua personagem, a “divina” Magda, foi tão grande que a atriz estampou a capa da revista Playboy em maio de 1991, logo após o fim da novela.
Grande parte do sucesso de Magda pode ser atribuída à parceria entre Vera e Guilherme Karan (1957-2016). O ator havia deixado recentemente o icônico TV Pirata (1988-1992) e solicitado ao diretor Daniel Filho uma participação nas novelas da emissora, com um personagem que destoasse completamente daqueles que viveu no humorístico. Karan fez o mesmo pedido, por telefone, a Cassiano Gabus Mendes. Surgiu então Porfírio, soturno mordomo da família Venturini e secretário pessoal de Dom Lázaro.
Guilherme Karan revelou à Folha, em 10 de março de 1991, que Porfírio era o personagem preferido do autor.
“No último dia de gravação, uma atriz que eu não posso revelar o nome se aproximou de mim e disse que todas as declarações que Porfírio havia feito à Divina Magda durante a novela ela havia ouvido na vida real do Cassiano. Eu descobri que havia vivido o alter ego do autor!”, contou o ator em entrevista à AllTV, em 2003.
Dos humorísticos também saiu Zilda Cardoso (1936-2019), intérprete de dona Elza. Zilda era conhecida pela personagem Catifunda, presente em muitos programas do gênero, como a Escolinha do Professor Raimundo (1990-2001). A atriz não resistiu ao convite de Paulo Ubiratan, que a havia dirigido em Delegacia de Mulheres.
Ariclê Perez, aclamada no teatro, estreava nas novelas da Globo em um papel triplo: a simplória Rosa Maria, sua “personagem” Rosemarie Costa Brava e sua sósia Maria Helena, falecida esposa de Dom Lázaro. Até então, a atriz havia feito apenas rápidas participações em duas novelas da Tupi e na minissérie Sampa (1988), exibida pela Globo.
As saídas de Luma e Isis de Oliveira

Luma de Oliveira, lançada como atriz em O Outro, recusou convites para viver uma modelo em Top Model e para interpretar Guta em Pantanal – papel entregue a Luciene Adami. Segundo a atriz, ela queria uma personagem que se diferenciasse de sua trajetória e de seu comportamento. Por esse motivo, Luma aceitou o convite para viver Ana Maria em Meu Bem, Meu Mal, uma garota de programa sonsa e arrivista.
Na época da estreia da novela, Luma de Oliveira estava começando a namorar Eike Batista – uma relação que gerou inúmeras polêmicas nos anos seguintes.
Irmã de Luma, Isis de Oliveira recusou um papel em Lua Cheia de Amor para viver Mimi Toledo na novela de Cassiano Gabus Mendes, com quem já havia trabalhado em Champagne e Que Rei Sou Eu?. No entanto, foi afastada de Meu Bem, Meu Mal por volta do 70º capítulo. Segundo a própria atriz, a dispensa foi uma represália à viagem de fim de ano que ela realizou com o consentimento da equipe de produção.
A saída de Isis de Oliveira gerou repercussões na trama. Luma de Oliveira, grávida, deixou o elenco logo depois, sem sequer gravar a cena do assassinato de Ana Maria – uma dublê cumpriu a função da atriz.
O marido de Mimi, Toledo (Sérgio Viotti, 1927-2009), explicou a Doca que a “esposa havia sido demitida por excesso de faltas ao trabalho”.
Para suprir a ausência de Mimi Toledo, o autor criou Gisela, interpretada por Maria Estela (1942-2017). Já para movimentar o núcleo de Berenice (Nívea Maria), aliada de Mimi em uma vingança contra Isadora Venturini, surgiu Argemiro, seu ex-marido. O personagem morreu capítulos antes do fim da novela para que seu intérprete, Stenio Garcia, pudesse integrar o elenco da produção substituta, O Dono do Mundo (1991).
Quem também “tomou o bonde andando” foi Françoise Forton. Para dar vida a Marcela, esposa de Ricardo que permanecia em estado catatônico desde um acidente no qual fora dada como morta, a atriz contou com o auxílio de psicólogos do Museu do Inconsciente, pertencente ao Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro. Também recorreu às lembranças da novela O Grito (1975), centrada na figura de um menino com deficiência mental que se torna pivô dos conflitos de um edifício paulistano. Na produção, Françoise Forton havia interpretado a estudante de comunicação Marina.
A atriz Eliana Rocha, de Negócio da China (2008) e Pé na Cova (2013-2016), emprestou seus berros a uma personagem que o público de Meu Bem, Meu Mal não chegou a ver. Ela era a voz da mãe de Dirce, senhora adoentada que atrapalhava o namoro da filha com Doca na sala, com seus urros vindos do quarto.
Os visuais que marcaram época

Meu Bem, Meu Mal marcou a despedida de Lídia Brondi das telas. A atriz deixou a carreira artística para se dedicar à psicologia. Sua personagem, Fernanda, termina nos braços de Doca. Na festa de encerramento da novela, aliás, surgiram os primeiros boatos sobre o namoro de Lídia e Cassio Gabus Mendes. Os dois estão juntos até hoje.
O guarda-roupa de Isadora Venturini foi adquirido pela figurinista Helena Gastal em Nova York. As peças eram assinadas por estilistas como Claude Montana (1947-2024) e Giorgio Armani (1934-2025). A personagem popularizou as faixas largas de couro usadas no cabelo.
O cabelo de Fernanda, curto atrás e com franja reta, havia conquistado as ruas após a estreia do filme Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990), no qual a atriz Demi Moore exibia o mesmo corte.
Também do filme, campeão de bilheteria naquele ano, veio a canção Unchained Melody, dos Righteous Brothers, tema internacional de Isadora Venturini.
Para a trilha incidental, Roger Henri buscou uma linguagem mais próxima da cinematográfica, associando os temas a determinadas personagens. Duas de suas composições, Valentina, para a personagem homônima de Yoná Magalhães (1935-2015), e Dreaming, do André interpretado por Marcos Paulo, integram a trilha nacional.
Um trecho da ópera Tosca, ausente das trilhas sonoras da novela, embalou cenas de Dom Lázaro, como a que ele desperta após o derrame.
A sofisticação no horário nobre

A sofisticação de Meu Bem, Meu Mal também pode ser notada nos carros e objetos de cena, em sua grande maioria importados.
Uma das curiosidades da cenografia é a utilização de uma foto do então marido de Adriana Esteves, Totila Jordan Filho, no cenário da personagem Patrícia. Na ficção, o retrato correspondia a Beto, namorado da moça que a abandonou ao descobrir que o sogro, Felipe (Armando Bógus, 1930-1993), estava envolvido em um escândalo financeiro. O episódio motivou Patrícia a se vingar de Ricardo, também implicado na negociata.
Durante os oito meses de exibição da novela, a equipe de Meu Bem, Meu Mal deslocou-se para São Paulo, onde foram realizadas grande parte das tomadas externas. Entre as locações estavam o restaurante La Tambouille, a sorveteria Swensen’s, o Golf Clube e a casa de espetáculos Palace. A danceteria Aeroanta também serviu de cenário, em sequências que contaram com a participação do grupo Roupa Nova.
Houve ainda gravações no haras Vila Fal, que contaram inclusive com a participação de Lica e Luciana, esposa e filha do proprietário do local, o empresário Arnaldo Diniz. Lica atuou como dublê em cenas de hipismo, enquanto Luciana apareceu como professora de adestramento. Também foram realizadas cenas na Estância Muriçoca, de Maria Aparecida Brandi Assis de Oliveira, amiga pessoal de Gabus Mendes, localizada em Pirassununga, no interior de São Paulo.
Uma fala de Dom Lázaro, aliás, ganhou as páginas dos jornais por traduzir o comportamento de empresários brasileiros, como Ricardo Miranda, diante da crise financeira que assolava o país no início dos anos 1990: “No mundo inteiro, os empresários patriotas vendem seu haras para salvar a empresa; no Brasil, os empresários vendem a empresa para salvar o haras”.
Os ruídos causados pela novela

Outra locação utilizada em Meu Bem, Meu Mal chamava a atenção pela suntuosidade: a mansão de Dom Lázaro Venturini. Os proprietários da casa chegaram a oferecer um jantar ao elenco da trama para comemorar o sucesso da novela.
Já o núcleo menos abastado gravava na Vila Maria Zélia, conjunto de casas construído no bairro do Belenzinho, na Zona Leste de São Paulo, pelo industrial Francisco Matarazzo, na década de 1940. As gravações tumultuavam a rotina do bairro. Uma escola chegou a suspender as aulas, pois os alunos queriam acompanhar as cenas.
Os moradores do Belenzinho não gostaram da maneira como o bairro foi retratado em Meu Bem, Meu Mal. Para eles, o folhetim apresentava o local como sinônimo de pobreza e mau gosto.
A trama também sofreu críticas da Associação Brasileira de Fisioterapia pelo aconselhamento fisioterapêutico realizado por uma profissional não habilitada para isso – no caso, Elza, então enfermeira de Dom Lázaro – e pelo uso de bolas de borracha, técnica antiquada no tratamento de hemiplegias, como a que acometeu o personagem.
As numerosas ações de merchandising também incomodaram os telespectadores. Entre os produtos e estabelecimentos citados estava a loja de departamentos Mappin. No entanto, a presença de uma agência de design no enredo permitiu integrar muitas dessas ações à narrativa. Foi o caso de uma linha de perfumes de O Boticário, cujo desenvolvimento – da escolha dos nomes das fragrâncias até a chegada dos produtos às lojas – foi acompanhado pelo público por meio de cenas que atribuíam aos profissionais da Venturini Designers a criação dos perfumes.
Uma curiosidade: as cenas de merchandising, incluindo essas, eram escritas por Cassiano Gabus Mendes com base em sinopses enviadas pelos anunciantes. Estes só conheciam o resultado final quando a novela ia ao ar.
Numa sequência com Marco Antônio e Fernanda em uma loja de discos, a Globo fez propaganda involuntária da concorrente Manchete, ao exibir LPs de Pantanal e Angélica, então apresentadora do Clube da Criança (1983-1998).
O design em destaque
Entre as inovações de Meu Bem, Meu Mal estava o uso do software AutoCAD, que cumpria funções de “cenógrafo”, permitindo aos profissionais da produção visualizar o cenário como um todo, definir as cores dos móveis e das paredes e sugerir posições para a iluminação. A novela também utilizou câmeras Ikegami HK-355, totalmente automatizadas e guiadas por um painel de controle computadorizado.
A abertura de Meu Bem, Meu Mal foi um espetáculo à parte! Hans Donner vibrou com a possibilidade de levar sua profissão para as telas da TV. Foi o “mago do design” quem desenhou os objetos vistos na vinheta: duas pulseiras, uma caneta, um frasco de perfume, um abajur de parede, uma chaleira e um telefone.
A destruição desses objetos na vinheta foi realizada com soluções bastante primitivas: o abajur se estilhaçou com um tiro, enquanto o líquido que saía do frasco de perfume era, na verdade, óleo de cozinha.
Boni quis adquirir o telefone exibido na abertura e ficou surpreso ao descobrir que se tratava de uma maquete de 80 centímetros, cuja superfície brilhante resultava de uma mistura de poliuretano e tinta automotiva.
Entre chamadas, aberturas e trilhas sonoras, o logotipo de Meu Bem, Meu Mal contou com diferentes versões.
A reprise de Meu Bem, Meu Mal é uma das mais mutiladas da história do Vale a Pena Ver de Novo: apenas 75 capítulos, ante os 173 da exibição original. No ar de 12 de agosto a 22 de novembro de 1996, a reprise dividiu a grade da Globo com Quem é Você? e Anjo de Mim, às seis; Vira Lata e Salsa e Merengue, às sete; e O Rei do Gado, às oito.
Meu Bem, Meu Mal foi reapresentada no Canal Viva – hoje Globoplay Novelas – entre 21 de março e 8 de outubro de 2016. No mesmo período, o Viva resgatou Mulheres de Areia (1993) e Laços de Família (2000).

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