Vila Madalena no Globoplay: relembre os bastidores da novela

Trama enalteceu bairro paulistano e surpreendeu ao trocar abertura por clipes

Edson Celulari como Solano em Vila Madalena (Divulgação / Globo)

Vila Madalena (1999) estreia nesta segunda-feira (19) no Globoplay. A novela de Walther Negrão reforça o Projeto Resgate, que oferece mensalmente títulos preservados pela Globo na íntegra, com poucos capítulos perdidos ou disponíveis apenas em versões internacionais.

Exibida às sete, a trama acompanha a busca de Solano (Edson Celulari) por justiça. Condenado injustamente por transportar uma carga roubada, ele passa sete anos na prisão. Ao sair em condicional, descobre que sua companheira, Eugênia (Maitê Proença), está casada com Arthur Junqueira (Herson Capri), a quem ele atribui a armação que o levou à cadeia.

A trajetória do protagonista se cruza com a de Roberto (Marcos Winter), preso pela morte acidental de um homem. Livre, Solano se encarrega de levar uma carta do colega de cela à noiva dele, Pilar (Cristiana Oliveira). A atração entre os dois é quase imediata.

A seguir, o site Duh Secco relembra os bastidores da novela que exaltou o bairro paulistano, enfrentou problemas de audiência e surpreendeu ao substituir a abertura por clipes das músicas que compunham a trilha sonora.

Foco em São Paulo

Mais Você - Ana Maria Braga
Ana Maria Braga e Louro José (Tom Veiga) no Mais Você (Divulgação / Globo)

Vila Madalena foi uma encomenda da Globo a Walther Negrão. A emissora buscava se aproximar dos espectadores de São Paulo, praça de maior relevância tanto para a aferição de audiência quanto para o mercado publicitário. A investida incluiu, já nas primeiras semanas de 1999, a transferência do Hoje e do Jornal da Globo para os então novíssimos estúdios da capital paulista. Também o lançamento do Mais Você de Ana Maria Braga, três semanas antes da chegada da trama à faixa das sete. A apresentadora era a estrela das tardes da paulista Record. Outros nomes recrutados em emissoras ligadas a São Paulo estrearam nos meses seguintes, ainda com Vila Madalena no ar: Serginho Groisman e Jô Soares (1938-2022), do SBT, e Luciano Huck, da Band.

Leia também: Globo fez a limpa na concorrência enquanto exibia Terra Nostra às oito

Negrão evitou repetir cenários e elementos comuns às novelas ambientadas em São Paulo até então, como bairros ligados à comunidade italiana. A medida evitou conflitos com Terra Nostra, folhetim de Benedito Ruy Barbosa lançado pela Globo em setembro de 1999, às oito, sobre a imigração de italianos para o Brasil no século XIX. A ideia de ambientar a história no bairro onde o autor vive até hoje surgiu enquanto ele fazia compras em um sacolão.

“A Vila é um bairro que transborda cultura e que tem momentos distintos à noite, com os bares, e durante o dia, com as empresas. Está coalhada de artistas plásticos, escritores, atores e intelectuais”, enalteceu o novelista em entrevista ao jornal Folha de São Paulo.

Aliás, o desejo de Walther Negrão, desde a elaboração da sinopse, era de que o título fosse mesmo Vila Madalena – o provisório era Sexo Oposto. Jorge Fernando (1955-2019), diretor artístico, compartilhava da mesma opinião, conforme revelou ao jornal O Globo:

“Gosto porque me lembra o filme Manhattan (1979), de Woody Allen”.

Pelas ruas da Vila…

Vila Madalena - Luiza Tomé, Mário Gomes e Rosamaria Murtinho
Rosamaria Murtinho (Margot), Mário Gomes (Donato) e Luiza Tomé (Raquel) em Vila Madalena (Nelson Di Rago / Globo)

Vários estabelecimentos comerciais serviram às locações. O restaurante Zé Kléber foi rebatizado Donato’s por conta do personagem de Mário Gomes, boa vida que empurrava todo o trabalho duro para a esposa Raquel, vivida por Luiza Tomé. A casa de produtos esotéricos e terapias alternativas Magma Núcleo Terapêutico abrigou Margot, papel de Rosamaria Murtinho. Ainda, sequências com a doméstica Lilica (Betty Gofman) no sacolão e em padarias e do motoboy Zezito, o Cachorro Louco (Marcelo Faria), no Beco do Batman. A equipe também usou um quarteirão entre as ruas Girassol e Harmonia.

“Aqui, todos os bares são super produzidos, coisa que não existe no Rio. Parece trabalho de cenógrafo mesmo, ideal para uma novela”, festejou Roberto Naar, diretor geral, à revista Veja.

Sequências envolvendo a prisão de Solano foram rodadas no município de Jacareí, no Vale do Paraíba, São Paulo. O Palácio da Justiça e a Praça da Sé, região central da capital paulista, serviram às cenas do julgamento e da condenação injusta do protagonista.

As primeiras aparições de Roberto foram na Bolsa de Valores de São Paulo. Externas na Praça do Correio e no Edifício Martinelli complementaram a apresentação de Arthur Junqueira – a empresa dele ficava no prédio. Um condomínio na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral paulista, atendia às sequências da casa de praia do vilão responsável pela armação contra Solano.

Turma do bem

Vila Madalena - Cristiana Oliveira e Marcos Winter
Cristiana Oliveira (Pilar) e Marcos Winter (Roberto) em Vila Madalena (R. Marques / Globo)

Uma pesquisa encomendada pela Globo ao Museu da Pessoa auxiliou Walther Negrão no desenvolvimento dos personagens. O estudo reunia tipos, profissões e estabelecimentos comerciais comuns a Vila Madalena.

“A personagem da Cristiana (Oliveira), por exemplo, ficará desempregada no início da novela e fará todos aqueles trabalhos alternativos que quem já ficou sem emprego deve ter tentado alguma vez. Venderá cestas de café da manhã, levará cachorros para passear, dará cursos de cerâmica e cromoterapia. Coisas que você vê demais no bairro”, explicou o autor a Folha de São Paulo.

Negrão evitou explorar as mazelas comuns a diferentes localidades de São Paulo, como pontuou, também a Folha:

“As notícias negativas eu deixo para os jornais. Chega de vodu! Não vou grifar coisa ruim, a novela não vai ter mendigo, essas coisas”.

O baixo astral ficou restrito, a princípio, ao período que Solano e Roberto passaram na cadeia. A preparação de Celulari incluiu a leitura do livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella.

Desfalques no time

Malhação 1999 - Mario Frias e Priscila Fantin
Priscila Fantin (Tati) e Mario Frias (Rodrigo) em Malhação – Múltipla Escolha (Nelson Di Rago / Globo)

As primeiras listas de elenco contavam com Arlete Salles, na pele de Margot, e Maria Zilda Bethlem.

Escalado para Hugo, Mario Frias foi substituído, antes do início das gravações, por Thierry Figueira. A Globo alegou razões contratuais.

“Eu já havia lido a sinopse da história e criado o personagem na minha cabeça. Nunca tinha me acontecido isso. Foi como se tivessem me jogado um balde de água fria. É mais um aprendizado que se adquire”, protestou Frias em entrevista ao Globo. Logo depois, o ator foi eleito protagonista da primeira temporada de Malhação ambientada no colégio Múltipla Escolha.

Ao jornal O Estado de São Paulo, Cristiana Oliveira revelou ter assumido o papel de Pilar após a recusa de Giulia Gam. A atriz voltava a contracenar com Marcos Winter, seu par em Pantanal (1990, Manchete) e Corpo Dourado (1998).

“Quando recebi o convite ainda estava em licença-maternidade, mas aceitei para trabalhar com Jorginho [o diretor Jorge Fernando] e voltar a fazer comédia”, destacou Cristiana, que contou com o apoio da emissora para manter os cuidados com a filha Antônia nos estúdios.

Luisa Thire conciliou o trabalho como atriz com o de preparadora do elenco infantil. Ela interpretava Nilda, babá dos filhos de Eugênia, Lucas e Laurinha, vividos por Guilherme Vieira e Natalie Figueiredo, então com sete e seis anos, respectivamente.

Sobe o som

Vila Madalena não tinha abertura. Clipes das músicas da trilha sonora nacional cumpriam a função – os créditos, sobrepostos às imagens, cruzavam a tela como ruas em um mapa. Segundo a revista Veja, além de promover o CD da novela, a Globo fez economia ao repassar os custos de produção às gravadoras, que viam na iniciativa uma forma de promover seus artistas.

“Quando eu mostrei as músicas da novela para o diretor de criação Daniel Filho, ele gostou tanto da escolha que sugeriu abrirmos espaço para os clipes”, revelou Mariozinho Rocha, então diretor musical da emissora, a Veja.

Atritos fora de cena

Vila Madalena - Ary Fontoura
Ary Fontoura como Menez em Vila Madalena (Divulgação / Globo)

No mês seguinte à estreia, Vila Madalena enfrentou críticas de Ary Fontoura, intérprete de Menez, em entrevista ao Globo. Na ocasião, o cinéfilo interpretado por Fontoura, vizinho das irmãs Margot e Bibiana (Yoná Magalhães, 1935-2015), trabalhava como músico em telegramas animados promovidos pela Oficina da Alegria, empreendimento de Solano e Pilar.

“Esse folhetim começou diferente. Não tivemos reunião de elenco, o que só aconteceu depois. Não é uma queixa, mas aconteceu. No início de qualquer história sempre recebíamos 12 capítulos e nessa foram dois de cada vez. As sinopses eram sucintas. Meu personagem na ‘Indomada’, por exemplo, veio inteiro desde o primeiro capítulo. Poderia ter feito até melhor, mas não foi culpa de ninguém. Dessa maneira corrida, o trabalho sai prejudicado. Outra coisa são esses grupos de discussão que decidem sobre os personagens”, relatou.

Menez foi um dos personagens mais afetados pelos ajustes feitos na narrativa em busca de audiência. A chegada da irmã Elvira (Sylvia Bandeira) e dos sobrinhos Bia (Susana Werner) e Guga (Daniel Marinho) perturbaram a rotina do pacato e solitário cinéfilo, também envolvido em um triângulo amoroso com Marinalva (Rosi Campos) e Valdir (Élcio Romar) – a advogada de Roberto e o diretor do presídio onde ele e Solano ficaram.

José de Abreu e Nívea Maria também reforçaram o elenco, como Viriato e Adélia, pais de Roberto e Hugo.

Oscar Magrini, responsável por Aricanduva, noivo da doméstica Lilica (Betty Gofman), foi desligado da produção e da Globo após faltar às gravações. “Ele não recebeu os capítulos a tempo, por um problema do correio, e achou que não havia gravação programada para aquela semana”, argumentou Matilde Mastrangi, esposa do ator, em entrevista a Veja. Magrini seguiu para a Record, onde atuou em Marcas da Paixão (2000).

A saída de Aricanduva foi justificada por Dalva – participação de Cissa Guimarães –, que foi à casa de Lilica para se apresentar como esposa dele e revelar seu verdadeiro nome: Genivaldo.

Antes do imbróglio envolvendo Oscar Magrini e Aricanduva, Betty Gofman enfrentou críticas por conta da composição de Lilica. “A personagem estava seguindo por uma linha estranha, caricatural. Vamos humanizá-la”, comentou Walther Negrão ao Estado de São Paulo.

Disputa amorosa

Vila Madalena - Maitê Proença
Maitê Proença como Eugênia em Vila Madalena (Divulgação / Globo)

A reta final de Vila Madalena foi marcada pela indecisão de Solano quanto a Pilar e Eugênia. A personagem de Cristiana Oliveira acabou fortalecida diante das falhas de caráter da rival vivida por Maitê Proença, atribuídas à defesa dos filhos diante das investidas criminosas de Arthur.

“A última pesquisa mostrou que o público torce muito para que Pilar e Solano terminem juntos. Na própria Vila Madalena, converso com os moradores e eles também demonstram mais simpatia por este casal. Mas há os que preferem que o Solano volte definitivamente para a Eugênia por causa da beleza da Maitê Proença”, declarou Negrão ao Globo.

“Estou numa encruzilhada. Até porque nenhuma das duas candidatas é uma vilã”, complementou em outra entrevista ao mesmo jornal.

Escrito por Duh Secco

Sou apaixonado por TV e novelas desde a infância. Passei pelo blog Agora é Que São Eles e pelos sites Canal VIVA, RD1 e TV História. As análises, informações exclusivas e matérias sobre os bastidores de produções do passado e do presente também chegaram às redes sociais. Hoje, assino uma coluna no site Notícias da TV e mantenho este espaço próprio, sempre empenhado em levar o melhor do audiovisual a quem me acompanha.

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